Da República muito se tem dito e escrito nos últimos tempos. A ocasião do centenário da República portuguesa tem sido frutuosa em exercícios que pretendem pensar a coisa pública ao mesmo tempo que se estabelecem pontes entre o Portugal de há 100 anos e o actual estado do país.
Os discursos proferidos hoje pelos Chefes de Estado e do Governo da República Portuguesa caminharam nesse sentido. Tanto Sócrates como Cavaco fizeram alusões ao passado para lançar pistas para a actuação nos dias que correm.
A plateia que os escutava foi – estranhamente ou não – calorosa para ambos em diversos momentos dos seus discursos, sobretudo aquando das alusões aos feitos históricos do regime republicano.
Das entrelinhas de ambos os discursos ressaltaram recados para o Portugal de hoje, essa República centenária, que a custo avança não se sabe bem para onde.
Se Cavaco afirmou que hoje se vive bem melhor do que há cem anos, Sócrates puxou dos seus galões e, referindo-se a uma das suas obras de regime – a requalificação do parque escolar -, falou da Educação como grande legado do regime centenário.
O Primeiro Ministro aproveitou a ocasião para relembrar que no momento actual, tal como há 100 anos, é necessário arrojo e progressismo. Referia-se ao bota-a-baixismo da oposição face à actuação dos seus governos, com certeza.
Já o Presidente da República estabeleceu o paralelismo entre a actual situação de crise económica e social e o Portugal em crise de há um século. Falou da falta de responsabilidade como principal motivo para a queda da Primeira República e discorreu sobre o tema: o puxão de orelhas para os desaguisados entre Governo e oposição.
Cavaco Silva terminou o discurso num tom totalmente virado para o futuro e assente na ideia de que Portugal conseguirá ir longe. Vai resolver os seus problemas como tem vindo a fazer até hoje: bastando-se a si e à sua vontade.
Nas comemorações do centenário da República não houve um verdadeiro discurso de regime. Pouco ou nada se acrescentou ao que se sabia. A República precisa de novidade, que se lhe agitem verdadeiramente as águas, que ela se revolucione a si mesma, transforme a vida dos portugueses e os coloque a trabalhar num mesmo sentido: Portugal.
A República centenária já tem idade para se escusar à mesma comemoração de sempre, com mais ou menos gente a assistir. A República centenária precisa de ser devolvida a todos porque a Educação e a Responsabilidade só fazem sentido quando saltam dos discursos do protocolo e passam para o código genético dos povos.
Da República, essa senhora com 100 anos, sabe-se que está débil e doente: é centenária. Da República, poder-se-á fazer melhor ou pior; tudo depende da diferença entre o discurso (pouco cativante e mobilizador, mas historicamente sustentado) e a prática.






